Muito longe do Vale do Silício

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O Brasil está longe de se transformar em um novo Vale do Silício. Na opinião de Silvia Valadares, as startups brasileiras ainda precisam aprender muito para conseguir aproveitar as oportunidades do mercado e ter acesso a capital, seja nacional ou estrangeiro. Silvia comanda dois programas de fomento ao empreendedorismo da Microsoft no país. O BizSpark é um projeto global voltado para as startups digitais, que fornece software gratuito e proporciona contato com grandes players do mercado, dando aos negócios visibilidade e ferramentas para sua estruturação. Já o BizSpark ONE, uma extensão do primeiro programa, oferece a um número menor de empresas um contato mais próximo com os profissionais da Microsoft e seus parceiros, que orientam os empreendedores sobre expansão e investimentos. No Brasil, cerca de duas mil empresas já passaram pelo BizSpark. Mas somente três fazem parte do BizSpark ONE: Cortex Intelligence, P3D e Compra3.

 

SILVIA VALADARES
QUEM É: gerente de desenvolvimento da economia local de software na Microsoft Brasil
O QUE FAZ: seleciona empresas para os programas BizSpark e BizSpark ONE, que auxiliam empreendedores a ter acesso a softwares e proporcionam contato com players do mercado

Como está o fomento à cultura empreendedora no Brasil?
Os empreendedores brasileiros não têm preparação. Por isso, acredito que a Endeavor, a Anprotec [Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores] e todos que trabalham com empreendedorismo têm de se unir. O empresário precisa ser orientado até mesmo sobre o tipo de dinheiro que está disponível para ele. O que é investidor anjo? O que é capital semente? Em outros países, parece que a pessoa já aprende a empreender quando usa fraldas. Aqui, ninguém aconselha o filho a correr riscos. As pessoas são encorajadas a ter segurança, a prestar concurso público. A gente precisa dar educação e mentoring, preparar esses meninos e meninas para os investidores.

Como os investidores encontram as empresas em que vão investir?
Em blogs ou na mídia. Estar na Pequenas Empresas & Grandes Negócios ou na página do Biz¬Spark é importante. Se aparece no blog Tech¬Crunch, por exemplo, vai conseguir pelo menos uma conversa com o investidor. Tem muita gente procurando boas empresas iniciantes. Mas nem todo mundo está pronto. Em dois minutos de conversa, o investidor já sabe se o que ele quer está ali ou não. Daí só vai ouvir o resto por educação — ou nem isso.

O que mata a conversa na hora?
Às vezes a ideia é ruim e não tem um modelo viável. E às vezes aparecem ideias que serão boas lá para a frente, ou que foram boas dez anos atrás. O empreendedor não sabe disso porque não fez um estudo de mercado.

O que os investidores procuram nas startups brasileiras?
Bons negócios em web e mobilidade. Conteúdo também é uma área com muita oportunidade: faltam sites para garotas, sobre bebês, sobre carros… E há ainda a educação. A geração de adolescentes de agora aprende de forma diferente. Eles usam um aplicativo como quem abre um armário e pega um objeto. É preciso criar produtos para eles.

O que torna uma empresa elegível para o BizSpark?
O negócio precisa ter até três anos de existência, realizar uma atividade basea¬da em tecnologia da informação e faturar até R$ 1,2 milhão por ano. O grande benefício do BizSpark é o relacionamento de longo prazo que o empreendedor pode ter com a Microsoft e com sua rede de parceiros. A solução criada pela empresa pode se beneficiar dessa rede e ser vendida, junto com a plataforma Microsoft, para os nossos clientes.

Esses empreendedores têm acesso a mentores e a investidores?
Nem todos. Nós não somos o Vale do Silício. Por mais que empreender seja hype hoje em dia, a realidade aqui é bem diferente. Não posso pegar um empreendedor e colocá-lo na frente de um investidor sem testar antes, porque isso pode matar a oportunidade. Fiz isso uma vez. Era uma ideia genial, mas não vi o plano de negócio. Quando o investidor perguntou sobre o modelo, o empreendedor disse: “Não pensei nisso”. Acabou tudo ali.

Os investidores têm contribuído para as startups que dão certo?
Os anjos, com certeza. Pessoas como Pierre Schurmann e Yuri Gitahy têm tido paciência para ouvir os empreendedores, dar feedback. Eu recomendo às empresas que procurem sempre o smart money, que entra com capital e mentoring. Às vezes, o empreendedor está tão concentrado no negócio que não vê que existe um buraco gigante, ou que o mercado está indo na direção oposta. Ele precisa de informação.

Há mais investidores brasileiros ou estrangeiros?
No estágio inicial, mais brasileiros. O estrangeiro vê o Brasil como algo arriscado, por conta de nosso sistema legal. Ele pode comprometer seu capital e não conseguir fechar a empresa com facilidade. Eles preferem empresas consolidadas. Mas, aos poucos, estão chegando ao país — muitas vezes, sem fazer barulho.

Se não estão fazendo barulho, como encontrá-los?
No ambiente de empreendedorismo, todo mundo se conhece. A informação circula. Se um investidor está conversando com uma empresa, as pessoas ficam sabendo. Uma empresa passa a dica para outra.

Então quem não está nessa comunidade deve entrar nela.
Quem não está na comunidade não existe. Essa cultura empreendedora sobrevive em comunidades. Minha preocupação é levar isso para fora de São Paulo. Hoje, o empresário tem de vir à capital paulista para fazer negócio. Mas o desenvolvimento pode ser mais barato em Recife, em Curitiba ou outras cidades com cena de startups, como Belo Horizonte, Florianópolis e Rio de Janeiro.

Quais são os denominadores comuns de quem dá certo?
Ter uma equipe multidisciplinar. Não precisa ter 20 sócios, porque isso também não dá certo. Mas juntar uma pessoa de design, uma de economia e outra de TI — eu vejo isso com bons olhos. Outro fator é não ter aversão a riscos. O empreendedor precisa estar disposto a largar o emprego e abrir uma empresa, mesmo que receba uma oferta tentadora para ficar onde está.

Fonte: Revista PEGN